Problemas modernos requerem perspetivas antigas

Updated: Jun 24

[Artigo em Português. Publicado originalmente em SIC Notícias. Link inexistente devido a ataque informático]

“Uma das consequências de uma educação ecológica é que se vive sozinho num mundo de cicatrizes.”

Um ano após a sua morte em 1948, estas palavras viriam a fazer parte do grande êxito póstumo de Aldo Leopold, ‘A Sand County Almanac and Sketches Here and There’ (1949). Para um homem que, começou carreira, como responsável pela gestão de predadores que ameaçavam o gado (eufemismo para “diminuição ou extermínio de populações locais”), a epifania de Leopold continua a proporcionar um caso dramático de redenção. Leopold reconheceu o papel fundamental das espécies de predadores, que deveria caçar, desempenhavam nas comunidades bióticas, o que o levou a desafiar a ortodoxia da época. Um dos exemplos mais célebres é a aniquilação de carnívoros, como o lobo ou o urso, o que levou ao aumento do número de herbívoros que, por sua vez, alterou a vegetação, através do sobrepastoreio.


Palavras como as que abrem este artigo ecoavam uma narrativa recalcada pelo silêncio, na sequência da perda de outras espécies, e de uma pegada humana cada vez mais dominante. Leopold percebeu que aquilo que era naturalmente ‘selvagem’ deveria permanecer intacto de forma a desempenhar o seu papel num todo interligado e complexo. O problema agravava-se com o cerco perene que a humanidade mantinha numa biosfera que, manifestamente, estava a fracassar na sua resistência contra esta força em contínua expansão. Porém, através das suas observações (e do trabalho de outros cientistas da época), uma nova ética ambiental, bem como um movimento de conservação do meio selvagem, emergiram, influenciando profundamente ambientalistas da época e de gerações futuras.


Considero-me entre aqueles que foram não só influenciados por Leopold, mas por outros nomes da velha guarda conservacionista, como John Muir, Henry David Thoreau ou George Perkins Marsh. Todos eles, em alguma altura da sua vida, se pronunciaram contra a narrativa antropocentrista e do avanço implacável da civilização humana sob a égide do progresso, em detrimento daquilo que é natural e selvagem. As suas visões vieram a moldar a insurreição ambientalista do pós-guerra, que contava agora com outros contributos teóricos como os de Rachel Carson, Paul R. Ehrlich, William Vogt, Garrett Hardin, Herman Daly, Kenneth Bouding e o Clube de Roma.


Entre eles, estes autores chamaram à atenção para um manancial de questões. A fragilidade do meio natural face à atividade humana crescente, o efeito multiplicativo de todos os problemas ambientais subjacentes a uma população em crescimento e o dilema de providenciar um estilo de vida mais abastado a toda a população, que por sua vez gera maior impacto ambiental per-capita. Também foi destacado o movimento de populações de países com economias em desenvolvimento para outras sobre desenvolvidas, tendendo a adquirir os seus padrões de consumo mais elevados, e os limites intrínsecos dos sistemas planetários, que serão ultrapassados enquanto se mantiver o crescimento tanto da economia como da população.


Em poucas palavras, nas décadas de 70 e 80, era perfeitamente normal para o movimento ambiental advogar a contração da população mundial, restrições migratórias para países sobre desenvolvidos, a necessidade de um novo sistema económico baseado num modelo estacionário e a consciência que não poderia existir tal coisa como crescimento perpétuo num sistema finito e interligado como o nosso planeta. Uma das equações que sustentava este movimento ambiental era a avançada por Ehrlich & Holdren, em 1971. Esta descrevia, claramente, que o Impacto ambiental (I) era o resultado do tamanho de uma População (P), que teria um certo nível de consumo ou Afluência (A), que por sua vez era determinado pela intensidade de produção aliada à Tecnologia (T), ou I = PAT. Quando o impacto ultrapassasse a capacidade de carga (‘carrying capacity’, outro tema popularizado por Leopold) dar-se-ia uma sobrecarga (overshoot), um estado de degradação ecológica que não só leva a um reequilíbrio no tamanho da população, mas também a uma redução da capacidade de carga total, para um nível inferior ao inicial.

A questão que se coloca aqui é: quando é que foi a última vez que o movimento ambiental moderno se pronunciou relativamente a estes pilares da ecologia e sustentabilidade? É sabido que o Sierra Club - uma das primeiras organizações não governamentais dedicadas ao ambiente e fundada por John Muir no final do século XIX – manteve uma posição de restrição migratória para os Estados Unidos, em prol da conservação, durante a maior parte da sua história. Em 1980 a organização defendia:

“É óbvio que o número de imigrantes que os Estados Unidos aceitam afeta o tamanho da sua população e rapidez de crescimento. É possivelmente menos conhecido que uma política migratória, ainda mais que o número de crianças por família, é determinante para o número futuro de americanos.”

Esta posição manteve-se até 1996, quando pressões por parte de ativistas e disputas internas levaram a uma reforma total e ao abandono da mesma, a favor de convicções que geravam menos reprovação e repúdio por parte de membros e da sociedade em geral (o que também principiou um fenómeno de aumento de doações, que veio a determinar que tipo de projetos estas organizações estavam dispostas a manter).


O que se está a verificar com o Sierra Club é apenas um exemplo de um problema mais disseminado. São raros os casos em que organizações não governamentais ligadas ao ambiente se pronunciam sobre os temas acima descritos, preferindo, em alternativa, outros mais paroquiais e, aparentemente exequíveis, como a responsabilidade ambiental através da conservação de água, da triagem de resíduos domésticos ou a mobilidade responsável - tudo em nome das alterações climáticas. De facto, o discurso ambiental sofreu uma metamorfose tão profunda e vincada nas alterações climáticas que, já em 2018, uma investigação reportava que por cada 20 notícias sobre a crise climática, somente uma era sobre a perda de biodiversidade. Da minha perspetiva, estes resultados são demasiado conservadores, e a realidade deverá ser um ratio muito mais divergente, visto que os ativistas dos nossos dias que continuam o legado de Leopold ou Muir, parecem ser uma espécie em vias de extinção.


É visível que o movimento ambiental aparenta ter-se reinventado, tendo tornado a luta climática como a sua missão cardinal. Se considerarmos as prioridades deste activismo moderno, percebemos que este se transformou numa série de exigências destinadas a ‘resolver’ (em inglês usa-se o termo ‘fix’) o clima, convertendo-o num desafio de engenho e inovação. Os exemplos mais familiares incluem a descarbonização das economias através da eletrificação das frotas automóveis, a integração de sistemas energéticos alimentados por fontes renováveis e a eficiência energética das habitações e eletrodomésticos.Contudo, existem muitas outras propostas tecnológicas como o vertical farming, o sequestro de carbono, uso de inteligência artificial e data centres para criar smart cities, ou mesmo a geoengenharia, que têm vindo progressivamente a ser acomodadas por fações mais tecno-otimistas.


Adicionalmente, uma grande parte do ativismo climático/ambiental tem vindo a adotar questões de índole social como a criação de empregos climáticos, transições justas e desenvolvimento sustentável. Muitas vezes, em simultâneo com questões de afirmação pessoal e sexual, e políticas identitárias e raciais. Independentemente do valor intrínseco destas e outras causas, teremos certamente de admitir que as mesmas são, no mínimo, distintas, e no máximo, contraditórias à mensagem que acompanhou o advento do movimento ambiental de há meio século - a necessidade de contração de tudo o que era associado com o projeto humano, devido a limites biofísicos do planeta.


Não será aqui que se fará um escrutínio dos prós e contras destas ‘soluções’. Irei unicamente frisar que aquelas que estão dependentes de desenvolvimento económico e tecnológico, ou que se baseiam em melhorias de eficiência, não poderão resolver crise climática nenhuma enquanto o paradigma de crescimento da economia e da população não for desafiado. Caso contrário, ficaremos reféns de abordagens que têm de explorar e monopolizar o mundo natural de forma a providenciarem as necessidades de uma população em crescimento, que deseja subir na hierarquia de consumo e riqueza material.


A título de exemplo, as energias renováveis estão profundamente dependentes de processos industriais que não operam sem combustíveis fósseis, com cadeias de produção globais, e extração de recursos e ocupação/destruição do meio natural para sua instalação, levando a uma perda gradual do estado íntegro que Leopold favorecia. Como o ambientalista Max Wilbert comenta num artigo recente do New York Times:

“Explodir uma montanha não é ‘verde’, por mais marketing que lhe tentem dar”.

Por outro lado, parecemos ignorar o facto que qualquer redução de custos provenientes de aumentos de eficiência não resulta em ganhos para o ambiente. A verdade é que quando as pessoas adquirem um eletrodoméstico ou umas lâmpadas mais eficientes, o dinheiro resultante dessas poupanças é investido ou gasto noutro lado, invariavelmente contribuindo para o crescimento económico e como tal, para a emissão de mais gases de efeito de estufa. Outro processo semelhante, e que é descrito pelo Paradoxo de Jevons, revela que, quando, por exemplo, o preço da eletricidade baixa, as pessoas não tendem a reduzir o seu uso, mas sim a ser menos diligentes com a sua poupança – o que aumenta o consumo num todo.


É notório que as temáticas defendidas nos primórdios do movimento ambiental, e que continuam a ser pilares da sustentabilidade, encontram-se excessivamente em falta nos nossos dias. É preciso dizer que as mesmas caíram fora de moda porque o movimento ambiental deixou de querer apregoar teses profundamente politizadas, e a deixar claro que existem sempre trade-offs em todas as nossas escolhas. É obviamente mais fácil transmitir uma mensagem que tudo ficará bem se eliminarmos os subsídios aos combustíveis fósseis, se fizermos as maiores empresas responsáveis pagarem por uma transição “verde”, e se todos começarmos a conduzir um Tesla e a obter a nossa eletricidade de fontes renováveis. Tudo isso é mais fácil do que é dizer às pessoas que o projeto civilizacional que a humanidade ergueu e que conheceu nos últimos 70 anos, é não só prejudicial para o meio natural, como é totalmente insustentável, pelo que tem de ser abandonado (seguramente de forma involuntária).


Concisamente, os ambientalistas modernos assimilaram uma narrativa de mudança, que está profundamente dependente de tecnologias que requerem a invasão e monopolização do meio natural para que possam ser proporcionadas a uma população que não para de aumentar, e que busca, naturalmente, um estilo de vida mais confortável e abastado. De forma a distanciar-se de verdades inconvenientes, este movimento moderno pactua com ficções de desenvolvimento e progresso intermináveis, menosprezando a realidade de que habitamos um astro circunscrito por limites biofísicos.


Porém, para aqueles que decretam que a sua lealdade está para com o meio natural, este caminho só poderá resultar num cerco que não será levantado, independentemente de quantos painéis solares e eólicas forem instaladas. Aqueles que buscam uma educação ecológica olham para as vozes do passado e não desprezam as suas perceções da realidade, por mais deslocadas que estas estejam das inclinações sociopolíticas da época. Se as ignorarmos acabaremos seguramente mais sós, num mundo repleto de cicatrizes, cravadas justamente pelas nossas próprias mãos.

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