A Árdua Experiência com a Sustentabilidade

[Artigo original publicado na SIC Notícias. Link inexistente devido a ataque informático].

No verão de 2007, como um adolescente de 17 anos com um penteado questionável, arranjei o meu primeiro emprego. Viria a ocupar o posto de rececionista num parque de campismo, o que implicou uma carga de responsabilidade sem precedentes, mas, mais importante para o que quero aqui abordar, o momento em que levantei o meu primeiro cheque.


Ao longo da minha vida de jovem adulto estudante fui voltando ao parque de campismo, realizando várias temporadas de verão, e amealhando uns trocos. E agora, como doutorando a desenvolver uma tese ligada aos limites da sustentabilidade, decidi retomar a mesma atividade profissional, mas em regime part-time.


Estar cercado por árvores, e paisagens com reduzida urbanização, sempre foi um aspeto que rapidamente me conquistou no campismo mas, consoante me aprofundei nos meus estudos, fui percebendo que as pessoas eram um elemento fulcral na história. Havia algo que invocava a contemplação na simplicidade e na frugalidade que uma grande parte dos meus clientes demonstravam. Muitos chegavam a pé ou de bicicleta, eremíticos ou em formigueiro, e com uma tenda ou uma carrinha alugada, na tentativa de simular as clássicas Volkswagen ‘Pão de Forma’. Este estilo de vida abstémio e despretensioso foi, e continua a ser, uma lufada de ar fresco numa cultura que freneticamente coage as pessoas a perseguirem níveis de afluência pessoal cada vez mais elevados, contribuindo, como pretendo demonstrar, para que o conceito de sustentabilidade permaneça uma miragem.

Figura 2: Cortesia do autor.

Os Limites da Sustentabilidade

Foi enquanto frequentava o mestrado em Ecologia e Ambiente, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, que comecei seriamente a ponderar o nosso compromisso com a sustentabilidade. Estava a produzir a minha dissertação - que acabaria por se tornar no Human Overpopulation Atlas (2018) – e percebi que a componente populacional tinha sido afastada das correntes ideológicas mais influentes ligadas à sustentabilidade (noutra iteração ilustrei como a questão populacional sustentou a génese do movimento ambiental do século XX). No seu lugar, estilos de vida mais ‘verdes’ eram elevados quase ao nível de dogmas, dominando totalmente o discurso ambiental.


Mas havia qualquer coisa que não batia certo. Por um lado, qualquer estudo produzido, que revelasse um estilo de vida que todos deveríamos almejar, de forma a vivermos num estado quixotesco de harmonia com o planeta, era criado com uma população global fixa em mente, e dirigido às populações do mundo sobre desenvolvido. Mas por outro, todos os anos a nossa espécie cresce (nascimentos menos óbitos) em mais de 80 milhões (a maior parte deste crescimento a ocorrer em países com economias em desenvolvimento). Mais relevante ainda, a percentagem de indivíduos que atingem a classe média passou de 1.8 mil milhões em 2009 para perto de 4 mil milhões em 2021 (embora a pandemia tenha atrasado este crescimento), e o prognóstico é que em 2030 sejam 5.3 mil milhões.


Começava a inteirar-me que mensagens populares como ’35 ideias básicas para salvar o planeta’ ou ’11 atitudes que podem ajudar a salvar o planeta’ não seriam suficientes. Existia um facto incontornável, aquele que se o planeta fosse visto como uma caixa de chocolates - a ser dividida especialmente entre os indivíduos de uma só espécie - que todos os anos havia mais gente na fila para ter o seu, apesar de todos prometermos maneira muito imaginativas de cortarmos no consumo (após termos feito dos mesmos, a prenda mais popular do Natal). Afinal, não seria a colocar o pacote de leite no ecoponto correto ou a fechar a torneira enquanto lavava os dentes, que podíamos ignorar o facto de todos os anos existirem não só dezenas de milhões de pessoas adicionais na fila para obterem o seu chocolate, como outras centenas de milhões a quererem mais chocolate e de melhor qualidade.


A situação não era animadora. Por um lado, era considerado politicamente incorreto para os países ricos encorajarem as populações de nações com economias em desenvolvimento a adquirirem controlo sobre as suas decisões reprodutivas, e por outro lado, parecia-me evidente que todo o projeto de uma permanência harmoniosa da nossa espécie neste planeta era sustentado pela idealização que milhares de milhões de seres humanos iriam voluntariamente abdicar de estilos de vida e confortos materiais adquiridos.


Simultaneamente, e implicitamente ausente, estava a necessidade de colocar milhões de pessoas todos os anos num índice de desenvolvimento humano (HDI) mais elevado, sem que estas aumentassem a sua pegada ecológica. No entanto, como se pode observar na figura, a tendência é que consoante a população de um país atinge um maior HDI, estas tendem a aumentar o seu impacto no planeta. O porquê desta situação é explicado por outra analogia gastronómica, não existem almoços grátis.

Figura 3: Pegada Ecológica (Ecological Fooprint) por pessoa e Índice de Desenvolvimento Pessoal (Human Development Index). Gráfico pela Global Footprint Network (2017).


Um dos três indicadores usados para medir o HDI é o rendimento (income em inglês). Ao contrário dos outros dois indicadores - esperança de vida e índice de educação - o rendimento per capita está inalteravelmente ligado a uma pegada ecológica mais considerável, dado que quando as pessoas possuem mais dinheiro disponível, adquirem acesso a atividades e comportamentos que não só levam a um aumento de consumo, mas que aumentam o seu impacto no planeta. Isto pode ocorrer seja no maior consumo de produtos de origem animal, na aquisição de um veículo pessoal, em viagens internacionais cada vez mais frequentes e distantes, mais apetrechos tecnológicos, e claro, a um círculo vicioso de ostentação e desejo de aquisição de maior poder de compra - patrocinado por uma sociedade de consumo.


Adicionalmente, um estudo publicado o mês passado na revista científica Nature suplementa elementos importantes a esta conversa. Neste trabalho, os autores examinaram quantos limites biofísicos os países ultrapassam para conseguirem fornecer capacidade social para as suas populações terem algo semelhante ao HDI referido anteriormente. Há duas conclusões a sinalizar. A primeira conclusão dos autores é que estes determinaram que nenhum país está a conseguir fornecer uma melhor qualidade de vida sem sobrecarregar os sistemas ecológicos. Independentemente se têm economias sobre desenvolvidas ou em desenvolvimento, ambas as categorias estão a intensificar as suas exigências num planeta finito.


A segunda conclusão a assinalar é que, ao olharmos para a figura do artigo, percebemos que nenhum país está perto de providenciar algo como uma boa qualidade de vida sem ultrapassar vários limites biofísicos. Preferencialmente os países estariam no quadrante do topo, o mais à esquerda possível. Constatamos, no entanto, que nenhum chega sequer perto, e que os candidatos de topo são as Ilhas Maurício, Costa Rica, Sri Lanka, Costa do Marfim, Nigéria e Bangladesh. Portugal não está visível no gráfico, mas encontra-se sobreposto com o Uruguai, e pouco abaixo de Espanha. Escusado será dizer que os estilos de vida praticados neste quadrante no topo à direita são bastante diferentes da lista de países referida anteriormente em maior equilíbrio (por agora) com os limites biofísicos.

Figura 4: Limites biofísicos e limiares sociais. Retirado de ‘The social shortfall and ecological overshoot of nations’ por Fanning et al. (2021)


Se considerarmos mais uma vez a variável de rendimento, percebemos quão árdua será esta sustentabilidade que tanto se fala. Segundo os dados do World Bank, a mediana (poderão consultar também a média e GDP per capita) de rendimento anual em Portugal é de 7455€. Por outro lado, a Costa Rica tem uma mediana de 4821€, as Ilhas Maurício de 3385€, Sri Lanka de 2011€, Bangladesh de 999€, Costa de Marfim de 872€ e Nigéria de 728€. No extremo oposto, temos a Noruega com 20041€, Áustria com 16260€ ou os Estados Unidos com 17056€. A relação de causalidade é bastante evidente.


Não é possível separar o aumento do nível de rendimento de um acréscimo da pegada ecológica per capita ou intensificação dos limites biofísicos. Implícito nestes resultados está a dedução que se um português quiser viver ultrapassando até três limites biofísicos em vez dos cinco atuais, o seu rendimento anual terá de ser encurtado a algo semelhante à Costa Rica ou às Ilhas Maurício. Todavia, se o objetivo for viver sem ultrapassar nenhum destes limites, estamos então a falar de um rendimento não superior a 1000€ anuais (e ao retrocesso de capacitação social). Deixo à descrição do leitor a digestão destas inferências, com a ressalva adicional que se esta contenção parece drástica para um português, podemos esperar que aqueles que estão ainda acima neste quadrante, resistam mais vigorosamente a este apelo a uma maior simplicidade.


Um ‘Simples’ Teste à Simplicidade


Eu próprio me tornei um membro mais participativo desta cultura de consumo assim que comecei a trabalhar. Apesar de ter sido o próprio campismo, ironicamente, e o contacto com a simplicidade voluntária de muitos clientes, que me levou a conceber uma experiência um tanto ou pouco radical.


Considerando que o conceito de sustentabilidade estava agora profundamente dependente de alterações de comportamentos e atitudes, o meu objetivo era testar até que ponto esta seria uma estratégia de sucesso, adotando um estilo de vida mais modesto. Contudo, para que a prova fosse um sucesso, isso significaria abnegar de vários confortos que um indivíduo do século XXI e proveniente de um país com uma economia considerada desenvolvida, pressupõe serem imprescindíveis. Queria assim avaliar até que ponto um indivíduo, vivamente determinado, estaria disposto a sacrificar o seu bem-estar e conforto em prol da sustentabilidade. E assumindo, como hipótese inicial, que se eu não estivesse disposto a fazê-lo, dificilmente poderíamos contar com tal estratégia ser replicada voluntariamente a nível mundial - especialmente para aqueles que consideram preocupações ambientais e ecológicas como rumores desassociados das suas realidades.


Arranquei com a prova no meu último ano de mestrado, entre os meses de janeiro e junho de 2017 (a janela temporal vai prontamente tornar-se relevante). É aqui que será importante abordar a framework teórica que usei para definir o que seria então sustentável. Como referi anteriormente, a conceptualização do que era visto como sustentável não podia passar somente pelas práticas populares mais aceitáveis, como fazer a triagem de resíduos ou reduzir gastos de água ou eletricidade. Sabendo que tanto a população como a ambição de consumir mais não paravam de se expandir, procurei informar-me na literatura científica para determinar quão austera teria de ser a mudança. A figura abaixo ilustra as principais modificações:


· Casa de um quarto

· Mínima canalização

· Eletricidade para pequenos utensílios domésticos

· Ausência de aquecimento central, ar condicionado ou água quente

· Três conjuntos de roupa, sem máquina de lavar ou secar

· Dieta local sem produtos de origem animal

· Ausência de locomoção automóvel

· Ausência de locomoção aérea

Figura 5: Palestra ‘A Sustainable Lifestyle. Tackling the Population Taboo: Creating a Sustainable Future for Children’ por Terry Spahr, 2019.


Muitos portugueses irão olhar para esta lista e reconhecer algumas semelhanças com um estilo de vida que ainda está cravado na memória de muitos de nós. A verdade é que esta lista representa a forma como muitos dos nossos pais e avós viveram neste país no século passado (os meus incluídos), e como tal, muitas pessoas veem a libertação de tal estado de pobreza como uma vitória incontestável. Argumentar que teríamos de voluntariamente abraçar este estilo de vida sem dúvida parece cruel, mas essa é a realidade de uma espécie com um crescimento descontrolado, em que cada indivíduo pretende desbloquear novos patamares de conforto e experiências, mas continua a habitar um planeta finito, com uma ecologia e um balanço químico atmosférico progressivamente mais alterados.


Experimentei viver, no máximo do possível, de acordo com esta lista durante um período de seis meses. Como muitos estudantes universitários poderão corroborar, as acomodações por onde passamos não variam muito daquela aqui apresentada, portanto o esforço para apertar ainda mais o cinto não foi tão drástico como alguém que estivesse numa condição inicial mais luxuosa. Gastos de eletricidade eram reservados a duas pequenas lâmpadas, um frigorífico compacto e o carregador do portátil (continuava a ser estudante de mestrado, e essa era a minha ferramenta de trabalho). Abdiquei de um telemóvel pessoal por um período de dois anos que coincidiu com a experiência, por conseguinte, era menos um utensílio a exigir energia na forma de eletricidade.


Aquecimento central ou ventilação estavam fora de questão. Para dias quentes, uma janela aberta amenizava a desconsolação, enquanto várias mudas de roupa e um saco-cama de montanha aliviavam as noites de amargura. Não vou mentir, prescindir da água quente no pico do inverno foi… arrepiante, apesar de ter levado ao benefício não intencional de ter poupado ainda mais na água, visto que os duches eram curtos e agonizantes.


Considerando que já tinha suprimido o uso de água quente, decidi levar o compromisso um pouco mais além, abolindo o uso de gás natural na habitação. Como não estava numa situação que pudesse assegurar uma dieta local própria sem produtos de origem animal, e como não conseguia cozinhar sem gás, decidi procurar restaurantes que servissem menus vegan ou vegetarianos. Confrontei algumas gerências destes restaurantes com uma negociação. Se reduzissem o preço das suas doses, teriam um cliente diário assegurado por período mínimo de 6 meses. Acabei por ficar comprometido com um restaurante vegan perto da faculdade, que infelizmente só servia almoços. O jantar, lamentavelmente, estava menos de acordo com os requisitos da lista.


O conjunto limitado de roupa foi dificilmente uma inconveniência no dia-a-dia de um estudante. Tendo em conta que não é uma atividade que requer muito esforço físico até se torna exequível. O único fator agravante é que fazia toda a minha locomoção no Porto a pé, com a habitação na Lapa e a Faculdade de Ciências perto da Ponte da Arrábida (um trajeto de 3.2 km). Como frequentava um ginásio diariamente isso significava ter de lavar a roupa à mão constantemente, e deixar a secar dependendo das condições atmosféricas. Eventualmente tive de arranjar um pequeno ferro de engomar. O consumo associado é surpreendentemente elevado, mas considerando que era um uso muito pontual e breve, determinei que valeria a pena.


Dispensar o carro pessoal foi uma renúncia que implicou alguma logística. Desde o momento em que levantei o primeiro cheque no campismo, que comecei a poupar para comprar um veículo pessoal. Rapidamente me habituei ao conforto e liberdade associados ao mesmo, mas o compromisso exigia que o mesmo ficasse parado o máximo possível. Como referi acima, no Porto toda a minha mobilidade era feita a pé, mas era outra história se desejasse voltar a Alcobaça, e vice-versa. Após análise dos transportes intercidades, optei por usar o carro até Leiria (< 30km), deixá-lo estacionado por vezes durante algumas semanas, e fazer o resto do itinerário de autocarro (> 180km). Nem tudo foi negativo. É verdade que existe menos tranquilidade num autocarro apinhado de gente e estamos sempre dependentes de um horário ditado por outrem, mas podia relaxar e ouvir podcasts, não estava preocupado com multas de velocidade e podia fazer uma sesta sempre que quisesse.


O último item na lista, a renúncia a viagens de avião foi para mim o mais fácil de concretizar. Felizmente não partilho da loucura desta ‘geração EasyJet’ de fazer viagens regulares low-cost para férias ou em fim-de-semanas compridos. Na verdade, aderi ao movimento anti-flying antes de este se ter tornado popular com as travessias marítimas de Greta Thunberg em 2019, posto que viajei pela última vez em 2018. Por conseguinte, quando recebi o convite para fazer parte de um painel que queria trazer o tema da sobrepopulação para as discussões climáticas na COP25, optei por longas viagens noturnas de autocarro.


Balanço Final

Pretendo com este artigo revelar algumas particularidades que não recebem a devida atenção ou são ignoradas integralmente na discussão da sustentabilidade da nossa espécie. A intenção seria fazer um balanço sóbrio entre a teoria e a prática, de maneira a não só informar, mas a estimular a sua duplicação. É evidente que há muito mais que pode ser dito e feito de forma a atingir uma permanência mais harmoniosa da humanidade neste planeta, mas aproveitarei para abordar outras perspetivas e ações em próximos textos.


Relativamente à experiência deixo somente algumas notas. Mantive alguns dos hábitos e descartei outros, especificamente a ausência de água quente. Não sou vegan, contudo não tenho absolutamente problema nenhum em manter essa dieta, apreciando particularmente a enorme variedade de pratos e imaginação que existe nesse regime alimentar. Até as faculdades terem suspendido as aulas presenciais, no início da pandemia, fazia a maior parte das viagens de e para Lisboa de autocarro. Atualmente uso veículo pessoal quase exclusivamente para o itinerário do parque de campismo. Porém, para efeitos do trabalho aqui descrito, as decisões mais importantes são a renúncia à participação na cultura de consumo destemperado, e abdicação de ambições de aumento de afluência pessoal. Como muitos leitores irão reconhecer, as idades compreendidas entre os 20s e os 40s são dedicadas essencialmente a que o indivíduo atinja não só autonomia financeira, mas que eleve o seu poder de compra. O arquétipo em vigor é um que não reconhece a importância de uma simplicidade voluntária, mas sim um que almeja sempre maior, mais rápido, superior, e que desdenha o contentamento.


Visto que a idealização que vigora é a que temos de alterar os nossos estilos de vida para alcançar essa dita sustentabilidade, então é absolutamente garantido que não será algo tão atingível e suportável como se faz parecer. Se há algo que foi definitivamente comprovado com a pandemia de COVID-19, é que se nem sequer conseguimos concordar coletivamente em usar algo tão inócuo como um tecido na cara, para nos protegermos de um vírus com efeitos imediatos, concretos e letais. Sendo assim, que esperança é que podemos depositar numa tática que requer, à partida, que as pessoas não só alterem profundamente a sua maneira de viver mas, mais importante ainda, que abandonem pretensões de subirem numa hierarquia de afluência pessoal?


Sei que há pessoas que ainda voluntariamente aderem a modos de vida mais humildes e frugais, porque me cruzo regularmente com seres humanos assim, mas não entretenho ilusões que a sustentabilidade possa depender de milhares de milhão de indivíduos livremente abdicarem do seu conforto, riqueza e acima de tudo, das suas ambições. Por estas e outras razões é que estudo os limites da sustentabilidade.


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